Autossabotagem no amor: por que você estraga o que está dando certo

fio vermelho emaranhado com ponta solta, metáfora da autossabotagem no amor

Existe um roteiro curioso que se repete em muitas histórias de amor: a relação finalmente está boa, a pessoa é presente, trata bem, não há nada gritantemente errado, e é justamente aí que começam as brigas do nada, os defeitos que não existiam, o esfriamento, a saudade estranha da relação complicada de antes. Depois fica a pergunta que dói: “por que eu estrago o que está dando certo?”. Neste texto eu te explico o que é a autossabotagem no amor, por que ela não é falta de juízo, e como você pode começar a ficar quando tudo em você manda correr.

O que é autossabotagem no amor

Autossabotagem no amor é quando uma parte de você trabalha contra aquilo que outra parte de você quer. Conscientemente, você quer um amor tranquilo. Mas, diante dele, algo interno começa a produzir distância: implicância, teste, frieza, briga, fuga. Não é teatro nem má índole. É conflito interno, e ele tem lógica.

Por que a gente foge do que faz bem

O estranho é mais assustador que o ruim

Aqui está o segredo desconfortável: a gente não busca o que é bom, a gente busca o que é familiar. Se o amor que você conheceu na infância veio misturado com instabilidade, crítica ou ausência, o seu sistema emocional aprendeu que amor tem esse gosto. Quando chega um amor calmo, ele não é lido como alívio. É lido como território desconhecido, e o desconhecido, para o nosso sistema de alarme, é suspeito.

O corpo participa disso. Nosso cérebro emocional reage a sinais de ameaça antes da razão concluir qualquer coisa, como mostram os estudos de Joseph LeDoux sobre a amígdala. Só que o “perigo”, nesse caso, é a intimidade: quanto mais perto e mais real fica a relação, maior a exposição, e maior o medo de se machucar.

As crenças que trabalham no porão

A psicoterapeuta Stefanie Stahl chama de crenças nucleares as conclusões profundas que a criança tira sobre si mesma: “eu não mereço”, “cedo ou tarde vão me deixar”, “quando me conhecerem de verdade, vão embora”. Essas frases não aparecem escritas na tela da sua mente. Elas operam no porão, e a autossabotagem é o braço executivo delas: se a crença diz que vão me deixar, sabotar é uma forma de assumir o controle da dor. Eu estrago antes, para não ser pega de surpresa depois.

Sabotar é uma proteção antiga

Olha que virada de chave: a autossabotagem não é sua inimiga. Ela é uma estratégia de proteção criada por uma criança que precisava se defender de decepções grandes demais. Testar o outro até ele cansar, fugir antes de se apegar, escolher pessoas indisponíveis, tudo isso um dia foi escudo. O problema é que o escudo continua levantado numa guerra que já acabou.

Como a autossabotagem aparece no dia a dia

Alguns disfarces clássicos, veja se reconhece os seus: implicar com detalhes pequenos quando a relação aprofunda, provocar briga logo depois de um momento muito bom, se apaixonar por quem não pode ficar e bocejar diante de quem pode, adiar conversas de compromisso, manter uma saída de emergência sempre aberta, ou aquele impulso de conferir se o outro “aguenta” seu pior antes de mostrar seu melhor.

Como parar de estragar o que está dando certo

1. Flagre o padrão em ação

O primeiro passo não é mudar, é ver. Na próxima vez que a implicância ou a vontade de fugir subir logo depois de um momento bom, anote mentalmente: “olha ela aí”. Nomear o padrão te desidentifica dele: você deixa de ser “alguém que estraga tudo” e passa a ser alguém que tem um padrão antigo, o que é completamente diferente.

2. Aguente o desconforto do bom

Parece estranho, mas receber amor tranquilo incomoda quem não teve. Quando o carinho vier e o corpo quiser sair correndo, experimente ficar trinta segundos a mais. Respire. Deixe o bom ser desconfortável sem transformá-lo em briga. É assim, aos poucos, que o sistema aprende que segurança não é armadilha.

3. Conte para o outro, na medida certa

Você não precisa despejar sua história inteira, mas pode dizer: “às vezes eu me afasto quando a gente fica muito próximo, não é sobre você, é algo antigo em mim que eu estou cuidando”. Isso transforma o parceiro de alvo em aliado, e tira a briga do lugar de único idioma.

4. Leve o porão para a terapia

Crenças nucleares não se desmontam por força de vontade, porque elas se formaram antes da força de vontade existir. Se o padrão se repete de relação em relação, um processo terapêutico é o lugar de olhar isso com profundidade e sem pressa.

Conclusão

Autossabotagem no amor não é defeito de fabricação. É uma proteção antiga funcionando fora de hora. Você não estraga o que dá certo porque não quer ser feliz. Você estraga porque uma parte de você ainda acredita que a felicidade cobra um preço que você não aguenta pagar. Não cobra. E cada vez que você fica, respira e escolhe não fugir, você prova isso para si mesma, uma vez de cada vez.

Referências

LEDOUX, Joseph. O cérebro emocional: os misteriosos alicerces da vida emocional. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998.

STAHL, Stefanie. Acolhendo sua criança interior: uma abordagem inovadora para curar as feridas da infância. Rio de Janeiro: Sextante, 2022.


Leia também:

Bia Rossi

Sobre a autora

Bia Rossi é terapeuta, pós-graduada em Psicologia Junguiana e mestre em Biologia Funcional pela Unicamp. Com mais de 15 anos de experiência, ajuda pessoas a compreender e transformar padrões emocionais, integrando mente e corpo para construir relações mais saudáveis consigo mesmas e com os outros e viver com mais equilíbrio e bem-estar.

Quero saber mais sobre a terapia
Rolar para cima